Hoje, como é feriado, acordei a boas horas para poder reflectir sobre este e outros temas, sentindo-os ressaltar aqui no crânio à espera de uma epifania, mas sem grande sorte... Entretanto, numa abordagem marcadamente mais optimista que o habitual, pensei que por mais complicado que tenham sido os meus relacionamentos, ao menos nunca tive de os esconder do mundo - sempre pude, despudoradamente, ostentá-los, de forma a que depois os seus falhanços fossem, também, infelizmente, do conhecimento geral...
Ainda assim, e como diz a sabedoria popular, pela boca sempre sábia de um ogre verde, "Maix vale xoltar que guardar...", e quem sou eu para questionar os aforismos de uma criatura de ficção?
Daqui por dias, ou se calhar ainda hoje, que eu quando não estou a trabalhar baralho muito as datas, um governo que se diz o mais livre e democrático do mundo vai, pela 2ª vez, a votos para combater, nas suas forças armadas, a discriminação baseada na orientação sexual, sob a campanha "Don't Ask, Don't Tell" (algo como "Não Perguntes, Não contes").
Este princípio, datado de '94, proibia as autoridades militares de iniciarem qualquer investigação sobre a eventual homossexualidade de algum dos seus membros, ao mesmo tempo que proibia os militares de partilhar, admitir ou demonstrar publicamente que o fossem - agora Obama quer acabar com estas restrições, emendando o princípio para uma total descriminilização da preferência sexual.Pode parecer uma coisa pequena, quase insignificante, pelo menos para os mais tolerantes, mas é um facto que num meio fechado, machista, sexista (apesar de já haver mulheres há umas dezenas de anos) e tradicionalmente androcêntrico, a homossexualidade é, amiúde, brutalmente reprimida e silenciada.
Vêm à memória casos de espancamentos, nos anos 80, dados como "lições" a militares da marinha americana, alguns levando a homicídios violentos, por partes de colegas de armas que se sentiram indignados pelas escolhas sexuais dos seus companheiros de camarata. Outros houve que ocorreram por razões passionais, e alguns ainda que levaram a mal a rejeição por parte de marinheiros com a mesma orientação e resolveram silenciá-los.Eu gosto de pensar que, independentemente da nossa orientação sexual, somos seres humanos com opiniões, desejos, vontades, objectivos, ambições e capacidades criativas, profissionais e literárias, dignos de admiração e respeito, desde que a nossa conduta o permita. Mas não sou ingénuo ao ponto de acreditar que uma questão de fundo como a preferência de companhia íntima possa ser tão indiferente a todos como a da inclinação musical.
Imagino que alguns machos-alfa sintam os orifícios naturais ameaçados enquanto dormem, ou tomam duche, com um perigosíssimo e potencialmente bem apessoado colega na cama, ou chuveiro, do lado... Mas realmente, em que é que isso os aflige, quando se trata de confiar no homem mais próximo e as balas zunem com o nosso nome gravado, quando a nossa vida pode depender do soldado que partilha com ele a trincheira...?
Quer consigam passar a lei, (que vem dar a todos os militares americanos o direito a assumir a orientação sexual), quer não, o facto é que a discussão que levou a este ponto foi tão ou mais esclarecedora do que anos de segredos escondidos e mentiras debaixo de tapetes metafóricos. Ficou a saber-se quem era homofóbico, quem queria "sair do armário", quem achava que o exército passava bem sem alguns profissionais, e quem fugiu do serviço militar para sobreviver à humilhação - e é mesmo conversando que as coisas se tornam claras, que os consensos se encontram e que as verdades deixam de ser embaraços e passam a abraços (cuidadosos, e a uma distância cautelosa abaixo da cintura, mas abraços ainda assim...).
E o que tem toda esta verborreia a ver com paixão e amor? Tudo.
Nos EUA, temos um governo a tentar mover montanhas processuais, mobilizando milhões numa cruzada de aceitação como não se via desde os primeiros passos do movimento feminista, no Sec. XIX, ou dos direitos civis nos anos 50-60, pela integração racial - no fundo, o amor de um homem por outro, ou de uma mulher por outra, tornou-se tão importante que teve de se fazer uma lei para se escrever, preto no branco, que já não há que ter vergonha em ser humano, independentemente de quem acorda na cama ao nosso lado.
Haverá maior prova que o amor comanda o mundo? (inserir sorriso cínico aqui)
E de repente, em comparação, as tampas da minha vida já só parecem caricas... ;)
Village People - In the navy (version originale)
Enviado por scorpiomusic. - Veja os últimos vídeos de música em destaque.


