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quarta-feira, 6 de abril de 2011

The Love Bug - O Amor é um bug (?) :)

Boa noite, meninas e meninos - parece que é nestas horas que eu produzo mais, por isso há que aproveitar...

Mais uma insónia patrocinada pelo actual estado de coisas, mais uma quente e fascinante noite passada de rato em riste e teclado em prontidão - e como tal, urge falar de algo que me induza uma sensação de profundo relaxamento, uma espécie de nirvana emocional e físico, um sentimento descontente...

Estava a carregar o meu iPhone, companheiro de muitas aventuras e desventuras, a sincronizá-lo com o iTunes - que os meus gostos musicais eclécticos não se compadecem de ninharias como "espaço livre na memória" - enquanto abria o Live Mail, o Facebook, o IMdb, o Gametrailers, o IGN, o Meetic, o Badoo, o Zoosk - the usual...

Enfim, uma miríade de janelas e janelinhas polulavam no meu ecrã de 24", cada uma chamando a atenção para "updates", "feeds", "newsflashes" e outros nomes esotéricos - habituado a estas lides, aguardava placidamente pelo actualizar das imagens e das mensagens, quando tive uma das minhas epifanias patenteadas, daquelas que dão direito a uma lâmpada de incandescência (mas verde, que eu sou ecológico no pensamento) a parpadear aproximadamente 15 cm acima do meu ocipital.

Num mundo tão electrónico, em que o dia-a-dia de todos nós já não dispensa algum módico de tecnologia, ter-se-á o próprio amor reduzido a uma prosaica falha de software? Um pedacinho de código hiperactivo sem Ritalin?

Em suma, será o amor um "bug"? Ou talvez um "vírus"? Um "trojan"? Quiça um "worm"?

Os "sintomas" que afectam a nossa máquina senciente parecem indicar que sim - gera comportamentos erráticos e aleatórios, espasmos involuntários físicos e mentais, manifestações públicas de nítida perturbação emocional, ausência de instintos básicos de sobrevivência - como comer e beber, perda de noção da realidade, com alucinações frequentes em que julgamos ser imortais, invencíveis ou ter uma conta bancária sem fundo e faz-nos incorrer em situações em que nunca nos imiscuiriamos se o dedinho de testa estivesse a operar normalmente...

As outras espécies animais, mono ou poligâmicas, reservam as suas energias copulativas para alturas próprias em que os seus comportamentos, digamos, aparvalhados, são perfeitamente aceitáveis e compreensíveis - já os seres humanos, quando infectados pelo bug do amor, deitam as convenções às urtigas e trazem à tona o melhor e o pior do seu código-fonte, faça chuva ou faça sol, em todas as estações do ano, sem pausa para o café.

Tal como um erro de programação de um engenheiro informático que fez tudo à matroca, o amor é o que os americanos chamam um "game-changer" - ou, como diz uma conhecida música, "love, love changes everything" - um ditado ancestral afirma ainda que "all is fair in love and war" - topem-me bem a gravidade deste estado de coisas!

Quando o nosso pobre sistema operativo está "comprometido" pelo bug, as regras mais elementares da previsibilidade e do senso-comum saem pela janela (sem asas e agarradas a uma bigorna) - temos janelas que abrem sem querermos, aplicações que fecham sem mandarmos e uma imensidão de coisas que deixaram de funcionar sem percebermos porquê - e ligar e voltar a ligar não resulta, porque o raio do botão não existe...

Para nossa infelicidade, o ser humano versão 2.0 ainda não está disponível nas lojas, pelo que temos de nos contentar com esta "release" - sem firewall, sem antivirus, sem backups, sem botão de reset e sem a mínima ideia do que está a fazer.

O amor, seja como o "vírus" que se infiltra nas nossa defesas e nos deixa de rastos, o "trojan" que entrou mascarado de amizade inocente e era afinal algo de muito mais sórdido, o "worm" que sobrecarrega os nossos sentidos com pedidos de tempo de processador que já não podemos dispensar ou o tal "bug", que nos desorienta, de forma imprevisível, e nos vira o mundo do avesso, o amor é único...

O amor é uma aventura permanente, a força mais poderosa da criação, capaz das maiores cretinices, mas simultaneamente dos mais doces momentos de candura, coragem e abnegação - o amor transforma o mundo todos os dias, sempre que alguém se apaixona, sempre que um enamorado sorri, sempre que um americano dança à chuva enquanto canta, sempre que uma cantora de burlesque o nega, do topo do seu elefante...

O amor trouxe-nos até aqui hoje, mover-nos-á para ali amanhã e acabará por nos deixar acolá quando menos o esperarmos - como convém a um código malicioso, criado com o propósito único de semear a confusão, o descontrole e criancinhas :)

Por mais vezes que o meu sistema tenha tido de ser formatado, por mais instãncias em que tive de tentar reconstruir o meu disco rígido a partir de caquinhos, por todas as ocasiões em que reconheci todos os sinais de perigo e não fiz backups... Valeu sempre a pena. Sempre.

Não trocava nenhum momento de alegre inconstância por um sistema matemático inviolável e enfadonho, em que tudo tem o seu lugar, tempo e sentido.

Um dia destes a ver se desligo a firewall, deixo de actualizar o anti-virus e relego os backups para ao pé da minha coleção de VHS - que já é tempo de voltar a sentir o vento no rosto, outra vez...

Esse dia pode ser já hoje... Mundo, estás feito :)




segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Pitágoras era um malandreco!

Caros leitores, após mais uma ausência razoavelzinha, eis-me de regresso com um post sobre um tema que me é particularmente próximo do coração, o dos triângulos.

Não dos de Pitágoras (que era, assumidamente, um malandreco), nem das Bermudas, mas sim amorosos - todas e quaisquer situações em que aquilo que se quer não é aquilo se tem e, por vezes, aquilo que se tem também não é aquilo se quer.

Desde sempre que a espécie humana, voraz devoradora de anseios e desejos, tentações reprimidas e vontades sórdidas, caiu em situações lamentáveis, deixando o coração ao fumeiro e pondo-se a jeito para valentes desilusões, das quais vos deixo aqui 3 exemplos mais conhecidos:

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Menelaus - Helena - Paris

Apesar do que possa parecer, não é itinerário de um Intercidades, mas sim um dos mais famosos (e o primeiro) de todos os triângulos amorosos.
500 anos antes do carpinteiro da Galileia, uma mulher casada, Helena de Esparta, (boa, boa, todos os dias, reza a lenda...) por portas e travessas que agora não interessam nada, veio a embrulhar-se com um príncipe troiano chamado Paris (um bonzão meio amaricado, perito em falinhas mansas), que a rapta e leva para a sua cidade, convencido que o irmão, Hector (esse sim, um tipo porreiro, corajoso, bem casado e quê) o defenderia, na sua cidade inexpugnável, da ira dos gregos - que não tardou nadinha.
Menelaus (velhote, barbudo e barrigudo), o marido enganado, juntou todos os outros interessados na esposa numa armada de mil navios e toca de atacar Tróia, metendo pelo meio um cavalo crescidote do IKEA, um guerreiro com calcanhar de vidro e uma data de malta falecida sem necessidade nenhuma.
Ah, e no fim levaram a moça de volta, que o marido enganado nem a conseguiu matar, de tão gira que ela era - o raptor, esse, deu à sola, depois de ter estragado a sandália a Aquiles.

Contagem de mortos: perto de 180.000, números redondinhos.

Grau de Parvoeira (0-10): 7 (raptar a mulher de um tipo com tantos amigos é muito, muito estúpido mesmo - cair na cena do cavalo então...)

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Júlio César - Cleópatra - Marco Antonio  

Uma porrada de anos antes da TVI, (cerca de 50 anos antes de Cristo), um poderoso líder do mundo civilizado, Júlio César, é assassinado por uns quantos compinchas,que lhe mostram as suas facas Ginsu mos degraus do Senado.
Do outro lado do Mediterrâneo, Cleópatra, rainha dos egípcios (pré-Mubarak, portanto...) fica em choque por saber que o seu amor morrera.
No entanto, o melhor amigo deste, Marco António, (militar, boa pinta e oportunista qb) mete-se num ferry cheio de remadores suados e vai consolá-la - da maneira tradicional latina, segundo consta, mas lá se apaixonam...
Ele acaba por se meter numa sarilhada imensa, tem de andar à pancada com o seu antigo exército e no fim enganam o moço, dizendo-lhe que a sua amada patinou.
Ele, porque era um macho à séria, mata-se com um gládio nas intercostais (é d'homem, caraças!).
E ela, quando sabe da desgraça, vai atrás e pimba, deixa-se picar por uma serpente e quina também (isto também é de gaja, porque convenhamos que é tudo menos prático...).
Está aqui a origem do romance Romeu e Julieta, mas sem homens em collants nem declarações exageradamente rebuscadas.

Contagem de mortos: 130.000, mais coisa menos coisa  

Grau de Parvoeira (0-10): 9 (mas onde é que já se viu duas pessoas matarem-se por uma coisinha de nada???)

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Diana - CarlosCamilla


Entre os anos 80 e 90, (completamente trágico também, mas só se estragou uma casa...) surge o caso mais mediático de um triângulo amoroso envolvendo realeza.
Desde muito jovens que o príncipe Carlos (bonitão como o Eng. Sousa Veloso, dentes tortos, orelhas de abano e um caparro de menina) arrastou a asa à então menos homenzada Camilla (senil, enrugada, cara de ameixa e um gosto para chapéus como só a Júlia Pinheiro) - no entanto, por a moçinha entretanto ter encontrado outra pessoa, a vida do jovem infante continuou, tristonha, acabando por descobrir a sua Diana (giraça, cabelinho de Pin-y-Pon, vestidinhos da moda, tímida e coradinha), no final dos anos 80.
Mas como os primeiros amores nunca se esquecem, e apesar da princesa do povo ter o selo de aprovação da populaça, o Carlinhos teimava em ir martelar a paixão sempre que podia - coisa que acabou por descambar em escândalos mediáticos, alimentando a corrida à profissão (in)digna de paparazzo, e culminando na morte violenta da princesinha, (que estava prestes a divorciar-se para assumir uma relação com um tal de Dodi), numa brutal colisão entre a sua limusina e um pilar do Túnel d'Âme, em Paris, para fugir dos paparazzi.

Contagem de mortos: 4, sendo a Diana, o Dodi, o motorista e a reputação da Casa Real Britânica.  

Grau de Parvoeira (0-10): 6  (bem vistas as coisas, ele já a tinha enganado, e ela já andava a enganá-lo também, por isso fica tudo em casa e não se fala mais nisso...)

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Resumindo, e para voltar à realidade, já me vi em ambas as situações, apesar de continuar a achar bem mais ingrata a do vértice fraquinho, que tenta e tenta e retenta, mas nunca leva a brasa à sua sardinha - aliás, talvez por ter estado mais vezes do outro lado (o disputado e heróico garanhão lusitano) tenha aprendido a dar valor ao esforço inglório em que amiúde me encontrei (o pobre potro, anoréctico e manco).

Mas o que leva as pessoas a abdicarem de tal forma da auto-estima, a rebaixarem-se ao ponto de esperar migalhas e restos (que já dizia o anúncio do Pedigree-Pal, "não são uma alimentação adequada"...), a esperarem que (por piedade, atrito, acordar para a vida ou puro desgaste psicológico) a pessoa amada, finalmente, nos dê uma abébia?

Suspeito, (que nestas coisas nunca poderá haver certezas), que é porque o fruto proibido é o mais apetecido, e porque a sociedade nos ensinou que só aprendemos a valorizar as coisas se tivemos trabalho para as obter - eu discordo, vigorosa e resolutamente, pois nas coisas do amor não há nada mais doce do que gostarmos de quem gosta de nós, e vive-versa, sem espinhas, ossinhos ou quejandos... :)

Também imagino que se derivem alguns benefícios nas demandas por coisas impossíveis, inatingíveis ou simplesmente inalcancáveis - dizia Sir Edmund Hillary, após conquistar o Evereste, a propósito da sua motivação para o ter tentado escalar - "Porque estava ali." E faz todo o sentido - é a quintessência do desafio.

Um homem, ou uma mulher, supera as suas próprias limitações, suporta provações, assume gostos e preferências diferentes, sujeita-se a agressões ambientais, humanas e até físicas só para poder desfrutar de alguns minutos junto da pessoa amada, ainda que ela só tenha olhos para o outro vértice do triângulo - ao fazer isto engrandece-se, agiganta-se e enobrece-se, ainda que nem se aperceba.

Inglório? Talvez. Fútil? Possivelmente. Inerentemente humano? Sem dúvida.

Mas por vezes, ainda que raramente, é um labor que resulta num despertar da outra pessoa, num abrir de olhos suave mas persistente, seja porque descobriu no pretendente um valor desconhecido, seja porque se cansou de um vértice que não a valorizava ou a dava como adquirida - e não nos podemos esquecer que há pessoas, que admitindo-o ou não, gostam é de malta que as maltrate, que as faça passar as passas do Algarve, sendo ainda capazes de as defender, de as desculpar e de tentar entender as suas motivações egoístas com lentes rosáceas.

As mulheres vítimas de violência doméstica estão neste vértice (extremo) do triângulo, para sempre símbolo da fragilidade da condição humana de amar sem ser amada, ainda que nunca o admitindo publicamente - mas não são as únicas.

Um dia, num mundo perfeito, aquela pessoa especial vai olhar para nós e perceber o quanto a amamos, sem palavras, choradinhos, prendas tontas ou demonstrações inconsequentes de paixões transitórias - e, ao fazê-lo, vai preencher o nosso mundo com côr, sons e sentimentos que julgávamos só existirem nos livros de romances, ou nos poemas dos apaixonados.

Nesse dia eu gostava de ainda cá andar para dizer, de peito cheio. "Tinha razão, não é o trabalho que dignifica o Homem, é o amor..."

Beijinhos e abraços e um óptimo Dia dos Namorados :)





  

domingo, 2 de janeiro de 2011

Ano novo, impostos novos :)

No primeiro dia de um ano que se avizinha fabuloso e repleto de oportunidades fantásticas, cumprir-me-ia escrever um pequeno texto, não maior que "Os Lusíadas", exultando as virtudes de 2010 e as efemérides de maior nota - e foram tantas...

Felizmente, e como ninguém me paga por isto, posso antes escrever o que me apetecer, sem constrangimentos temáticos nem revisões editoriais - e vou então aproveitar para divagar um nadinha sobre os 5 piores filmes de 2010, de uma forma invulgarmente sucinta... Pelo menos para mim :)

Vamos começar pelos piores, porque tem sempre uma toada mais construtiva, e depois acaba-se em grande ;)


5 - "Clash of the Titans" de Louis Leterrier (Confronto de Titãs, em tuga)

Com um elenco de notáveis - Liam Neeson, Ralph Fiennes, Mads Mikkelsen, Gemma Arterton - e encabeçado pelo senhor do "Avatar" - Sam Worthington -, este filme tinha tudo para ser um sucesso - filmado em 2D, (mas rapidamente convertido para 3D), recriava a viagem mitológica de Perseus numa demanda para eliminar os esbirros do mal da superfície do planeta.

Na realidade, nem os actores salvaram uma história que parece ter sido escrita por Isabel Alçada depois de ver um compacto da "Xena - a Princesa Guerreira" e outro d"As Aventuras de Hércules" - aliás, o filme está ao nível de um eventual "Uma Aventura... de m***a" - entre as imagens desfocadas, os monstros arraçados de Power-Rangers, os efeitos especiais de trazer por casa e uma narrativa epiléptica, aproveitou-se o factor comédia e as melhores cenas (belíssimamente montadas pelo editor) do trailer.

Ainda assim, vendeu bastante bem - o que prova que a malta, depois de ver o "Avatar", papa tudo que diga "3D"...

Tão mau como... Ser devorado vivo por formigas guerreiras, ao som da voz do Justin Bieber.



4 - "The Last Airbender" de M. Night Shyamalan (O Último Airbender, em tuga)

Bem, por onde começar?

A mente alucinantemente inconstante (e digo-o de uma forma muito negativa) de Shyamalan pegou num "anime" de culto sobre um puto com tendências messiãnicas, capaz de conjurar todos os elementos, num planeta em que todos os habitantes se limitavam a poder controlar um, e tentou condensar quase 100 horas de material num filme de 2 horas.

A série animada, trasmitida pelo canal Nickelodeon entre 2005 e 2008, era bastante divertida, tinha sequências fantásticas, personagens ricas em detalhe e uma narrativa ocidentalmente incoerente mas orientalmente perfeita - seria portanto uma coisa supostamente fácil de adaptar ao grande ecrã, com 150 milhões de dólares de orçamento, 3D e os efeitos especiais da ILM...

Lamentavelmente, o realizador (que queria que este fosse o 1º de uma trilogia) resolveu pegar em perfeitos amadores para os papéis principais - sendo o mais notável o ex-amador de "Quem quer ser bilionário" -, esqueceu-se que as personagens eram o mais importante e esperou que os efeitos especiais do fogo e da água em movimento preenchessem o lugar da história e de um qualquer fluxo narrativo - resultado?

Uma data de dinheiro desperdiçado, um número razoavelzinho de cinéfilos confusos e desapontados e mais um preguinho no caixão que é a carreira de M. Night - esperamos ansiosamente pela sequela do "O Protegido"...

Tão mau como... Ser sodomizado à bruta pela totalidade do elenco masculino de um filme porno senegalês, usando preservativos revestidos a lixa de água.



3 - "Sex and the City 2" de Michael Patrick King (O Sexo e a Cidade 2, em tuga)

Para quem tinha sobrevivido ao assalto da vacuosidade que foi o primeiro filme, Sarah Jessica Parker (a mini-milk), Kim Catrall (a ninfo), Krystin Davis (a betinha) e Cynthia Nixon (a freak) reservaram algo ainda mais insípido, desprovido de lógica e totalmente isento de carisma para a sequela.

Com a premissa de uma deslocação a Abu-Dahbi, nos Emirados àrabes Unidos, para assistir a um filme em que participa o ex da ninfo, o elenco em peso procura desesperadamente por piadas sobre camelos, areia e guarda-roupas desadequados, falhando miseravelmente em todas as tentativas.

O filme é tão mau que nem os fãs do primeiro (ok, "as" fãs) conseguiram encontrar a justificação para os euros que tinham desembolsado - esperavam, encontrar as trintonas boazonas do costume, com tiradas sarcásticas, humor a cair para a queca e gajos bons amiúde - levaram antes com tipas a roçar os 50's, com rugas até aos pés, sem pachorra para a vida, para as roupas e para os homens e, pior de tudo, sem graça nenhuma. 

Tão mau como... Atirarem-nos soda cáustica para os olhos e só nos darem um picador de gelos para a tirarmos.



2 - "The Back-up Plan" de Alan Poul (Plano B...ebé, em tuga) 

Esta obra de arte do (pésimo) cinema romântico contemporâneo, ao contrário dos outros filmes deste apanhado, já tinha tudo para falhar, mesmo no título em português - não se pode dizer que as pessoas não iam avisadas, quando sabiam que o filme era interpretado pela mulher que, sozinha, destruiu não só alguns filmes promissores ("Anaconda", "Olhos de Anjo", "Encontro em Manhattan"...), como a carreira e a credibilidade de Ben Affleck durante 10 anos - falo, naturalmente de Jennifer Lopez (J-Lo, para os fãs).

O argumento é sobre uma trintona, com o relógio biológico a passar dos 200, que resolve ser inseminada artificialmente porque não descobre o homem ideal e tem de ser mãe ASAP - nesse mesmo dia, naturalmente, ele aparece. 

Curiosamente, nem são as piadas sem graça (que gozam com tudo o que ser pai possa ter de bom), ou as interpretações nulas (que alternam entre o grotesco e o catatónico) que estragam o filme: é mesmo o ritmo da história que teima em não avançar - sentimos, nitidamente, que o filme demora MESMO os nove meses, mas sem qualquer momento enternecedor, cómico ou inteligente pelo meio...

Tão mau como... Ser submetido a cirurgia dentária, sem anestesia, com um martelo pneumático, durante nove meses.



1- "Little Fockers" de Paul Weitz (Não Há Família Pior!, em tuga) 
  
Numa tentativa desesperada de ordenhar uma vaca que já passou (muito) da idade lactante, os produtores do filme gostariam de nos fazer crer que ainda há imenso humor a ser retirado de situações recauchetadas, de "gags" sobre mal-entendidos e de piadas escatológicas e/ou grosseiras.

No espírito natalício, em que tantas famílias optam pelo refúgio seguro das comédias ou da animação para arrastar os mais pequenos, a armadilha estava montada - um elenco familiar, mas luxuoso, em que pudemos rever Robert de Niro e Dustin Hoffman, acompanhados de Ben Stiller, Owen Wilson, Barbra Streisand e a sempre interessante Jessica Alba, não chegou para esconder uma aberrante falta de ideias e actores em piloto automático.

As 4 (contem-nas...) piadas do filme são repetidas ene vezes, as "punch-lines" topam-se com 3 dias de antecedência e quando finalmente termina, uma das perguntas nas nossas mentes é, indubitavelmente, "Onde é que eu estava com a cabeça??". A outra será "Como é que convenceram o De Niro e o Dustin Hoffman a fazer isto???", e ficará igualmente sem resposta.

Tão mau como... Acordar, todos os dias, no pior dia das nossas vidas e saber que não podemos fazer nada, mas mesmo nada, para o impedir.



Bom, o vosso sofrimento termina por hoje, que já se faz tarde - mas amanhã, pela fresquinha, a ver se compilo a lista dos 5, ou talvez 10, melhores filmes de 2010, que não vos quero a pensar que o ano passado foi só coisas más... :)

Feliz 2011, que em 2012 isto acaba tudo :p

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

O efeito "Rebound": o ressalto da auto-estima ou um tiro no pé?

Enquanto escrevo estas linhas, baixou um nevoeiro densíssimo, daqueles dignos de filme terror, sobre Almada. Olhando pela minha janela a visibilidade reduz-se a uma mera dezena de metros, as luzes da McDonald's são vagos contornos bacientos de branco e vermelho, os carros na rua fogos-fátuos com motor e as pessoas vultos fantasmagóricos.

Neste momento, pelo menos é como eu sinto estas ocorrências atmosféricas, tudo é possível: o regresso de D. Sebastião (ainda que mumificado e sem grandes hipóteses de salvar seja o que for), uma invasão de seres de outra dimensão (como na história de Stephen King, "The Mist"), uma vingança centenária de almas penadas (como no filme "The Fog", de John Carpenter), espíritos confusos presos numa aprendizagem extra-física (como no filme "The Others") ou até o ressurgimento de uma ilha milenar, onde criaturas mitológicas habitam em harmonia com a magia e outros conhecimentos perdidos (como na lenda de "Albion", presente em contos merlinianos e demais fantasias).

Lamentavelmente, e sem qualquer desprimor para os temas acima (qualquer um deles mil vezes mais interessante que o que escolhi para o devaneio de hoje), resolvi trazer à pedra um efeito conhecido por muitos de nós, senão por todos, ainda que talvez com outros nomes: o efeito rebound (ou ressalto, em tuga).

Para os mais futebolisticamente inclinados entre vós, tratar-se-ia de uma bola que por força de algum impedimento, ressalta num defesa e volta aos pés da equipa atacante, de forma a permitir uma segunda hipótese de conversão - para os amantes encalhados, acaba por significar uma liana de salvação, alternativa bem melhor que a queda no vazio amoroso.

Quantos de nós não viveram já, em qualquer momento da nossa vida sentimental, a desilusão de um abandono, a tristeza profunda de termos sido trocados/preteridos/abandonados/esquecidos/traídos (riscar o que não se tenha aplicado, porventura) pela pessoa em cujas mãos tínhamos depositado o nosso coração frágil?

Quantos de nós não se sentiram desamparados nesse momento, emocionalmente descompensados, como se nos tivessem tirado o fôlego, o vulgar "murro no estômago", sem saber se voltaríamos a poder confiar, duvidando se alguma vez o pobre músculo cardíaco voltaria ao fulgor de outrora, pondo em causa para sempre o amor enquanto coisa belíssima e pura que sempre tinha sido para nós?

E por fim, quantos de nós ergueram muros altíssimos, barreiras à volta dos nossos sentimentos macerados e punimos indiscriminadamente todos os que não mereciam (família, amigos, colegas e nós próprios), com o nosso semblante carregado, a melancolia no olhar, a amargura nas palavras e a rispidez nos actos mais simples?

Pois bem, foi para evitar este triste estado de coisas que alguém inventou, há milhares de anos, o "rebound"; desde a altura em que o último dos Neandertais viu a sua companheira trocá-lo por um Cro-Magnon todo chique, e pensou,de lágrima no olho: "Que se lixe, já não achava piada nenhuma aquela macaca, de qualquer das formas...", ressaltando de imediato na direcção da primeira fêmea bípede que encontrou - esta  história é verídica e deu origem, nos tempos modernos, a personalidades como a Júlia Pinheiro e algumas halterofilistas de países de Leste.

Resumindo, nos dias de hoje, os homens e as mulheres desventurados buscam consolo em regaços cuja proximidade se sobrepõe, amiúde, à estabilidade emocional e aos sentimentos de continuidade e coabitação.

Em termos de sabedoria popular ocorrer-me-ia o "tudo o que vem à rede é peixe", "mais vale um pássaro na mão do que dois a voar", "a cavalo dado não se olha o dente" - tudo, portanto do mais elogioso que dar se pode; a pessoa que se segue seria comparável a um peixe, uma ave ou um equídeo - bestial...

Mas é um facto, mais que assumido, que são essas relações que impedem, pela sua natureza de substituição de objecto de afecto, pelas suas características compensatórias, que nós caiamos totalmente em nós (o que para além de ser um paradoxo, deve ser extremamente doloroso) e nos apercebamos que ficámos, oficialmente, na m***a, sem apelo nem agravo.

Infelizmente, porque tudo tem um lado mau, este esquema tem muitos senãos (pelo menos meia-dúzia, em opção ou cumulativamente):

1 - a transitoriedade tem sempre um fim, forçando-nos a encarar novamente uma despedida;

2 - a outra pessoa acaba por sair magoada por não se ter apercebido que estivemos somente a usá-la como bóia de salvação;

3 - nós acabamos por levar na tromba depois da hipótese anterior;

4 - nós acabamos por sair magoados porque a outra pessoa também nos estava a usar como bóia de salvação e entretanto descobriu o amor - noutro lado;

5 - nós não crescemos enquanto pessoas porque não demos tempo suficiente ao "luto da relação anterior" (também chamado "fossa", "depressão" ou "ensaio para suicídio");

6 - nós passamos a vida a saltitar de compromisso em compromisso, como andorinhas do mar, com medo de pousar e nunca mais voltar ao ar.

Em jeito de conclusão, acaba por ser mais um aforismo que vem à memória, "preso por ter cão, preso por não ter"... Ainda assim, muitos são os que crêem que o rebound é absolutamente necessário para repor os nossos níveis de auto-estima em valores aceitáveis, permitindo-nos posteriormente entrar numa nova relação com as feridas saradas e sem bagagens excessivamente opressivas sobre os ombrinhos, um pouco como o efeito: dor de cabeça, uma aspirina... E já se pode apreciar a vida novamente.

Por já ter estado dos dois lados desta cerca, deixo aqui um conselho: não brinquem com os sentimentos das pessoas e deixem sempre bem claro em que estado levam o coração antes de começarem a correr - ninguém quer ter mais um AVC sem pré-aviso, ok?

Fiquem bem e uma óptima semana ;)
   

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Os Dói-dóis dos Doidos: uma reflexão sobre o amor e as leis dos homens...

O amor é uma coisa estranha, um sentimento que desafia a descrição, à margem da ciência, da lógica, da razão e de todo o empirismo do mundo. Move montanhas, mobiliza exércitos, arrasa previsões e altera as nossas vidas, para o bem e para o mal - gosto de pensar nele como um corte de papel: de fora ninguém percebe porquê tanto alarido, mas nós sabemos bem o quanto está a doer (e porque tudo parece bater na ferida...).

Hoje, como é feriado, acordei a boas horas para poder reflectir sobre este e outros temas, sentindo-os ressaltar aqui no crânio à espera de uma epifania, mas sem grande sorte... Entretanto, numa abordagem marcadamente mais optimista que o habitual, pensei que por mais complicado que tenham sido os meus relacionamentos, ao menos nunca tive de os esconder do mundo - sempre pude, despudoradamente, ostentá-los, de forma a que depois os seus falhanços fossem, também, infelizmente, do conhecimento geral...

Ainda assim, e como diz a sabedoria popular, pela boca sempre sábia de um ogre verde, "Maix vale xoltar que guardar...", e quem sou eu para questionar os aforismos de uma criatura de ficção?

Daqui por dias, ou se calhar ainda hoje, que eu quando não estou a trabalhar baralho muito as datas, um governo que se diz o mais livre e democrático do mundo vai, pela 2ª vez, a votos para combater, nas suas forças armadas, a discriminação baseada na orientação sexual, sob a campanha "Don't Ask, Don't Tell" (algo como "Não Perguntes, Não contes").

Este princípio, datado de '94, proibia as autoridades militares de iniciarem qualquer investigação sobre a eventual homossexualidade de algum dos seus membros, ao mesmo tempo que proibia os militares de partilhar, admitir ou demonstrar publicamente que o fossem - agora Obama quer acabar com estas restrições, emendando o princípio para uma total descriminilização da preferência sexual.

Pode parecer uma coisa pequena, quase insignificante, pelo menos para os mais tolerantes, mas é um facto que num meio fechado, machista, sexista (apesar de já haver mulheres há umas dezenas de anos) e tradicionalmente androcêntrico, a homossexualidade é, amiúde, brutalmente reprimida e silenciada.

Vêm à memória casos de espancamentos, nos anos 80, dados como "lições" a militares da marinha americana, alguns levando a homicídios violentos, por partes de colegas de armas que se sentiram indignados pelas escolhas sexuais dos seus companheiros de camarata. Outros houve que ocorreram por razões passionais, e alguns ainda que levaram a mal a rejeição por parte de marinheiros com a mesma orientação e resolveram silenciá-los.

Quando casos como estes chegam aos ouvidos do público em geral, já os gabinetes de imprensa militares falharam há muito; há indicações que apontam para que apenas 1 em cada 100 casos sejam reportados para fora, ainda que menos de 5% resultem em mortes. Mesmo assim, cinco mortes em cada cem não deixam de transparecer uma situação preocupante, ainda que não oficialmente.

Eu gosto de pensar que, independentemente da nossa orientação sexual, somos seres humanos com opiniões, desejos, vontades, objectivos, ambições e capacidades criativas, profissionais e literárias, dignos de admiração e respeito, desde que a nossa conduta o permita. Mas não sou ingénuo ao ponto de acreditar que uma questão de fundo como a preferência de companhia íntima possa ser tão indiferente a todos como a da inclinação musical.

Imagino que alguns machos-alfa sintam os orifícios naturais ameaçados enquanto dormem, ou tomam duche, com um perigosíssimo e potencialmente bem apessoado colega na cama, ou chuveiro, do lado... Mas realmente, em que é que isso os aflige, quando se trata de confiar no homem mais próximo e as balas zunem com o nosso nome gravado, quando a nossa vida pode depender do soldado que partilha com ele a trincheira...?

Quer consigam passar a lei, (que vem dar a todos os militares americanos o direito a assumir a orientação sexual), quer não, o facto é que a discussão que levou a este ponto foi tão ou mais esclarecedora do que anos de segredos escondidos e mentiras debaixo de tapetes metafóricos. Ficou a saber-se quem era homofóbico, quem queria "sair do armário", quem achava que o exército passava bem sem alguns profissionais, e quem fugiu do serviço militar para sobreviver à humilhação - e é mesmo conversando que as coisas se tornam claras, que os consensos se encontram e que as verdades deixam de ser embaraços e passam a abraços (cuidadosos, e a uma distância cautelosa abaixo da cintura, mas abraços ainda assim...).

E o que tem toda esta verborreia a ver com paixão e amor? Tudo. 

Nos EUA, temos um governo a tentar mover montanhas processuais, mobilizando milhões numa cruzada de aceitação como não se via desde os primeiros passos do movimento feminista, no Sec. XIX, ou dos direitos civis nos anos 50-60, pela integração racial - no fundo, o amor de um homem por outro, ou de uma mulher por outra, tornou-se tão importante que teve de se fazer uma lei para se escrever, preto no branco, que já não há que ter vergonha em ser humano, independentemente de quem acorda na cama ao nosso lado.

Haverá maior prova que o amor comanda o mundo? (inserir sorriso cínico aqui) 

E de repente, em comparação, as tampas da minha vida já só parecem caricas... ;)


Village People - In the navy (version originale)
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segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Ensaio sobre a preguiça

Este fim-de-semana foi particularmente prolífico num sem número de coisas absolutamente banais: chuva copiosa, dormir até às tantas da tarde, comer como se me preparasse para hibernar (admitidamente já faz frio...), ver bom cinema (o filme "RED", que recomendo vivamente), jogar RPG's que parecem ter sido testados pelo executivo de José Sócrates (para quem não sabe, é o equivalente a atribuir a um grupo de babuínos a responsabilidade de validar os cálculos necessários para enviar um satélite para o espaço...) e simplesmente aproveitar cada minuto do dia como se do último se tratasse (traduzido, tratar cada minuto como se fosse um dia... :) ).

Saramago, (escritor que, enquanto português, era um excelente espanhol), rabiscou há uns anos uma prosa rebuscada e altamente alegórica / metafórica / estúpida (riscar o que vos aprouver) sobre uma maleita que afectava gradualmente todo o mundo, uma cegueira branca (em vez da negra, mais comum) - uma "obra", chamemos-lhe assim, (se um pontapé do Hulk com uma biqueira de aço na área testicular também o for), capaz de deixar o leitor de rastos, tal é a sua crueza e o tom absolutamente sombrio com que pinta uma humanidade que, desprovida da visão, decai para o mais abissal animalismo - no fundo, e apesar de haver uma única pessoa imune à doença, o seu destino é tão mais aterrador que o dos sobreviventes - contemplar os últimos dias da humanidade.

Falei-vos sobre isto por várias razões: primeiro porque o título do post parecia indicar alguma correlação, mas ela não existe; segundo porque nunca gostei de Saramago, da sua arrogância insuportável, do espúrio constante a tudo o que é português, e muito menos dos méritos literários que, a existirem, eram certamente tão polémicos quantos os seus escritos - aliás, tremo em pensar que depois de terem assassinado Camões nas escolas, atravessado pela pena tísica de Pessoa - no seu olho bom, o cobarde -, o destino do esquizofrénico do Nicola venha agora a ser o mesmo, com um Nobel da Literatura enfiado pela têmpora pelo "novo" génio da língua; em terceiro e último lugar, dado o blog ser meu, posso dar o título que quiser e gostei deste, pura e simplesmente.

E isto é relevante porque...?

Simples, porque fui hoje questionado por que razão andava a escrever menos, a deixar a indolência tomar conta dos meus dedos (das mãos, que os dos pés são constantemente utilizados para manter o equilíbrio enquanto me locomovo), e porque tinha deixado também de desenhar, pintar, cantar profissionalmente (esta última ainda é mais fácil de explicar, porque sou envergonhado, ainda que a minha voz seja absolutamente fantástica no duche), em resumo, ignorando todos os talentos dados pelo Criador (neste caso dois, papá e mamã).

Comecei a remoer, desliguei o jogo que ultimamente já me roubou umas boas 60 horas, (ok, ele crashou pela enésima vez, mas o resultado final foi o mesmo...) e comecei a tarefa laboriosa de abrir o editor de texto do blog para deixar aqui estas letrinhas. Admitidamente, e porque não me considero, de todo, tão especial como por vezes me pintam, as razões eludem-me amiúde, mas resolvi vir experimentar a musa...

E realmente, olhando para o meu umbigo, o que faço com imensa frequência, cheguei à conclusão de que a preguiça, mais do que um pecado capital, é um direito fundamental.

É um pequeno demónio dentro de nós, aquela vozinha que nos diz "faz amanhã, descansa agora", a que nos faz procrastinar constantemente as coisas inadiáveis, que nos rouba a energia como um governo socialista, que nos deixa de tal forma esgotados que o simples facto de pensar em fazer algo nos remete, de imediato, ao mais profundo estupor, boca à banda, fiozinho de saliva a escorrer e um olhar baço, de quem estava a contar com o FMI, de aríete em punho, pela porta de casa à dentro...

Mas, simultaneamente, é uma das bases do hedonismo, uma das mais puras expressões de todos os seres vivos, a do repouso, da inacção, do simples desfrute do tempo que temos nesta terra como algo de divino, demasiado valioso para se desperdiçar em coisas efémeras, corridas loucas e preocupações que os dias se encarregarão de pôr no seu devido lugar...



Posso garantir-vos que, apesar de eventuais semelhanças, não possuo a totalidade dos traços que tornam a "Preguiça de 3 Dedos do Amazonas" num animal que sabe retirar da vida o que realmente importa. Lamentavelmente não consigo reduzir os meus batimentos cardíacos a 4 por minuto (e continuar vivo e consciente, entenda-se...), não sou capaz de estar meia hora debaixo de água sem respirar (pronto, sou, mas só uma vez...) nem acabar de comer uma maçã quando o caroço já floriu, mas pronto, no resto tento seguir-lhe fielmente o exemplo...

Porque mais do que um mero exemplar do reino animal, ser preguiça é um estado de espírito, uma filosofia de vida, uma forma única de encarar os desafios que a sociedade nos propõe - ser preguiça é ser tuga, no fundo.

É ver um governo atrás do outro encher os bolsos e o bandulhos e não fazer nada, é ser diariamente confrontado com injustiças aberrantes (que ninguém pode negar mas que fazer?), tribunais com obesidade mórbida (mas que não deixam que os operem), e ser roubado todo o santo dia em tudo menos no ar que se respira (e é deixá-los descobrir uma maneira de o fazer e...), é perguntar aos conhecidos "como vais?" e ouvir o sempre clássico "vou andando...", e continuarmos nós próprios a andar sem esperar pela resposta, não vá o infeliz mudar o guião e obrigar-nos a despender tempo da nossa preguiça para o ouvir...

No fundo, aqui no meu cadeirão das ideias, onde passei mais horas do que as recomendadas pelo fabricante, mais não tenho feito que ser o português perfeito, o que cala e consente, o que até protesta mas mais não faz do que resmungar e agitar os punhos aos deuses irados, o que acha que greves servem algo mais do que os interesses de quem manda; "pão e circo" diziam os romanos, "vinho e bola" dizia Salazar, e é só disso que os lusos precisam para andar entretidos, de cabeça baixa, como convém com o peso da canga - aliás, tão baixa que nem a canga vêem, tão triste é este estado de animal de carga, que uma vez terminada a vida na lavoura acaba no prato, abatido sem sequer uma palavra de agradecimento.

Para os que me julguem comunista, marxista-leninista, ou até nacionalista, neo-nazi ou coisa que o valha, desenganem-se; não sou uma doutrina, nem um anarca desorientado que acha que todo o poder oprime, não sou uma categoria fácil em olhos de censores, não dou o flanco sem investir e não dou ponto sem nó.

Sou apenas um português, um filho de pais que tudo fizeram para que eu hoje tivesse este direito, este lugar, e este tempo para me fazer ouvir, para fazer uma diferença na vida de cada um que me lê, da existência de cada um que me ouve, ou de, no mínimo dos mínimos, acender uma centelha, uma fagulha de esperança e vontade de tornar este país em algo de grandioso, e não na grandecíssima piada que hoje é, em que o "jogo-do-empurra" se tornou a expressão máxima da arte, em que ninguém tem culpa do actual estado de coisas senão quem veio antes de nós e, como tal, resta a quem pode roubar enquanto dá, e a quem trabalha, pagar enquanto respira.

Levantei-me agora, e escrevo estas palavras de pé, como um homem, sem uma canga sobre os meus ombros, sem talas nos meus olhos e sem vergonha de assumir o fardo de ser português.

Vou ser tudo o que puder ser, e fazer da minha vida algo digno de ser lembrado, algo capaz de erguer outros, algo que nem "eles" consigam calar.

Mas amanhã, que agora vou dormir, às 7 toca o despertador e se eu não for trabalhar não há dinheiro para obras públicas, saúde, educação, saneamento ou investigação. Não há solidariedade social nem reabilitação. Não há preguiça que sobreviva à necessidade de sobrevivência.

Mas há tempo para tudo. Experimentem e vão ver. :)

terça-feira, 19 de outubro de 2010

O rato e o taliban: uma história verdadeira?

Pessoal, é com algum júbilo, e um muito ligeiro regozijo, que vos lanço mais um post extremamente polémico, envolvendo situações tão graves como ódio racial, guerras além-fronteiras, forças militares, religião, jogos de vídeo, sentimentos de justiça, vingança, marketing agressivo e jornalismo mediático.

Venho falar-vos de um jogo que, ainda mesmo antes de ser lançado, já se encontrava sob fogo-cruzado de várias linhas inimigas (o que não deixa de ser irónico, dado ser um jogo de guerra...): os conservadores moralistas, que alegavam que a editora estava a desrespeitar a memória dos combatentes, um ex-advogado caído em desgraça que bradava a quem o quisesse ouvir que era uma ferramenta de estudo para matar americanos, e os próprios militares, que, levados pela polémica, proibiram a venda do jogo em todas as suas bases (mais de 300).

O jogo em causa chama-se "Medal of Honor" (MoH), um "First-Person-Shooter" (FPS) passado no Afeganistão nos tempos actuais, editado pela Electronic Arts (EA) e criado pela Danger Close, e foi posto à venda há 2 semanas para PC, Playstation 3, XBOX 360 e Wii - até aqui, nada de extraordinário.

Trata-se de um "reboot" de um franchise com mais de 10 anos, que sempre enveredara pelos terrenos mais familiares - e bem menos polémicos - da 2ª Grande Guerra, mas que recentemente tinha vindo a perder fulgor, num mercado cada vez mais saturado de FPS's de excelente qualidade, bem como da concorrência mais que directa da série "Call of Duty: Modern Warfare", da rival Activision, e criada pela Infinity Ward (IW).

Foi aliás esta outra série que mostrou o caminho à EA, "forçando-a" a enveredar por cenários mais recentes, menos trilhados até à data e com maior facilidade de empatia por parte dos jogadores mais novos, para quem a 2ª GG era de facto tão estranha como a ideia da televisão alguma vez ter sido a preto-e-branco...

Resultado, e para isto não se tornar uma análise de jogos, o novo MoH tentou, de alguma forma, recriar, (como era tradição na série, com fidelidade), os cenários de guerra, as relações de camaradagem entre os soldados, a sensação de perigo iminente e a constante dependência do trabalho de equipa, para sobreviver num ambiente francamente hostil aos soldados americanos.

A polémica gerou-se quando veio a lume o cenário escolhido: um conflito demasiado fresco na memória de muitos americanos e britânicos que perderam familiares no Afeganistão - um conflito que continua, aliás, a grassar, ainda quem em menor escala - e a possibilidade de jogar do lado dos Talibans, ainda que só em multi-jogador e nunca na única campanha de jogo.  

O mais estranho é que posso afiançar, tendo já jogado a totalidade da campanha a solo, que o jogo retrata os Talibans, quanto muito, como carne-para-canhão, servidos em doses industriais para amparar as nossas (muitas) munições e sem quaisquer traços simpatéticos de personalidade. Como guerrilheiros que são, aparecem retratados no trailer abaixo como inimigos cheios de recursos mas, tal como no imaginário americano, essa realidade cede lugar a adversários sem rosto, inteligência ou engenho - ou seja, eu só compreenderia se fossem os Talibans a queixar-se do tratamento neste jogo...



Um homem que vive de, e para, a mediatização das suas palavras, Jack Thompson, um antigo advogado de Los Angeles, (presentemente destituído da cédula por processos de corrupção e acusado de crimes de apropriação indevida de dinheiros públicos), auto-intitulou-se defensor da segurança dos soldados aliados em todo o mundo e resolveu fazer uma campanha viral intensíssima contra a EA e o "franchise" MoH - foi visto em vários canais a exacerbar os perigos (imaginados) dos Talibans terem acesso ao jogo e aprenderem a matar Americanos, ilustrando os seus devaneios com trailers do mesmo, bem como algumas imagens que mostravam jogadores a envergar o manto dos Taliban(!!!!) - até consigo imaginar os Gato fedorento a fazer um sketch sobre isto...

O cenário: atrás de um muro delapidado por balas, uma torrente de chumbo calibre 7,62 a esculpir os pedregulhos até se tornarem pandoras, e dois Talibans (podem ser o Ricardo e o Zé Diogo...) todos acagaçados, sem armas, mas de teclado numa mão e rato na outra, em frente um ecrã cheio de pó...
"Ópá, mata-os de uma vez, Aziz, assim não vamos lá!" ao que o outro responde "Rashid, já te disse mil vezes, no jogo eles levantam sempre a cabecinha para eu lhes acertar e quando morro volto a aparecer passado uns segundos, aqui não!!"

Aliás, segundo me lembro, brincar aos índios e aos cowboys ("uiiii, aiiii, cowboys...") ou aos polícias e ladrões, sempre teve um lugar muito presente nas tardes de verão de muito boas famílias com crianças em idade escolar, e nunca nenhum mal veio ao mundo por um fazer de cumpridor da lei e o outro de gatuno, mas enfim, com tanta modernice, se calhar um dia já nem a isso se pode galhofar com os amigos...

Todavia, (in)explicavelmente, não foi assim que o público em geral interpretou as palavras do Sr. Thompson, e não demorou muito a que os media menos informados transformassem o que seria digno de ridículo em merecedor de primeira página.

Estas e outras imagens caíram no goto do sempre-sedento-de-sangue espectador americano, levando à emergência de um frenesim de acusações contra a editora e o próprio estúdio, vilipendiando-os de "terroristas", "irresponsáveis", "insensíveis" e até "oportunistas sem alma" - basicamente, americanos médios a comportarem-se como americanos básicos.

Certo é que, com tanta polémica, a editora achou por bem alterar a designação da segunda facção "multiplayer", de "Taliban" para "Opposing Force", mas nem isso fez com que os organismos militares americanos, (globalmente reconhecidos como extremamente tolerantes e abertos a reconhecer erros), voltassem a permitir a venda dos jogos em todas as bases espalhadas um pouco por esse planeta fora - mais uma vitória para os QI's de 1 dígito, portanto...

Ainda assim, e para gáudio da liberdade de expressão e do direito à escolha dos jogadores, até à data de hoje, o jogo regista já 1,5 milhões de exemplares vendidos, e sem tendência para diminuir nas próximas semanas, classificando-se inequivocamente como um estrondoso sucesso que nem um profeta da desgraça, nem altas patentes da cretinice conseguiram abafar...

Para concluir, que nem todos os meus posts têm de ser testamentos, (só a maioria :) ), não houve nenhuma consequência nefasta de tanta celeuma, ajudando apenas a estabelecer os pusilânimes ignaros do costume versus os liberalistas new-age - em tuga, quem já era nhurro, mais ficou, quem não era... Está a ler este blog ;)

Fiquem bem e uma óptima noite :p